gif;base64,R0lGODlhAQABAAAAACH5BAEKAAEALAAAAAABAAEAAAICTAEAOw==

Interculturalidade e Saúde na Gestão de Pessoas, ou, a Saúde Intercultural na Gestão de Pessoas?

Há uma tendência frequente para se ligar o conceito de interculturalidade, quase exclusivamente, às migrações e à internacionalização, mas certo é que, também uma pessoa nascida no norte do país tem uma cultura necessariamente diferente de uma nascida no centro ou no sul (na verdade, todos nós temos uma cultura diferente, basta para tanto ser influenciados por círculos culturais diferentes, como família, amigos, escola, religião entre outros). Estes foram, são e serão sempre os desafios que se colocarão a uma gestão cultural, multicultural e intercultural dentro das organizações.

Mas, neste artigo trataremos por um lado a interculturalidade ligada às migrações e à saúde na Gestão de Pessoas e por outro a saúde intercultural da gestão de pessoas.

O aumento da globalização e dos fluxos migratórios exponenciou também os contactos interculturais e a diversidade cultural. Esta diversidade sentiu-se, não só na comunidade, mas sobretudo em contexto de trabalho, onde a comunicação intercultural e o trabalho em equipa passaram a ter dimensões de estruturação e compreensão de um outro nível de consciência e interação.

O desafio de nos libertarmos corporativamente do etnocentrismo é, ainda hoje, um desafio diário em muitas organizações.

A relação do indivíduo com a saúde e a doença está dependente de diversos fatores biopsicossociais e culturais. Assim, a abordagem intercultural e os modelos ecológicos e holísticos são muito importantes na medida em que têm em consideração que existe uma complexidade dos fatores intervenientes no domínio da saúde, nomeadamente, os contextos físicos e sócio-culturais dos doentes, as suas representações, crenças e práticas sobre a saúde e a doença, bem como, os estilos comunicacionais.

A Gestão de Pessoas numa organização que se quer saudável, tem em consideração todos estes fatores, e existe um foco na construção de soluções e programas integrados que têm por base uma visão 360º da saúde intercultural e bem-estar corporativo. Para tanto, habitualmente interage com o seu provider de saúde do trabalho, para que este possa estar igualmente preparado para o desafio da interculturalidade e agir adequadamente.

Um caso prático de organizações interculturais, para além das multinacionais, são as empresas de base tecnológica, que pela falta de pessoas do sector em Portugal, recrutam internacionalmente. Ao estudar essas empresas, nomeadamente, através de publicações nas redes sociais e nos media, vejo que, apesar de estarem preparadas para acolher e integrar, com planos de formação e desenvolvimento adequados, negligenciam por vezes a parte da saúde (na sua visão mais integrada) aplicando apenas os mesmos programas que aplicam a cidadãos nacionais.

Na verdade, desde logo, estar num outro país a trabalhar, pode ser um desafio brilhante, mas pode também implicar um grau de pressão grande e certamente, esse profissional beneficiará (e necessitará) muitas vezes de um acompanhamento específico que tenha em consideração as diferenças decorrentes da interculturalidade.

Os desafios são assim grandes para a Gestão de Pessoas, mas para a área da Saúde do Trabalho também.

Em contexto de saúde, estabelecer um clima de confiança e de compreensão entre a pessoa e os profissionais de saúde passa por gestos, atitudes e palavras acessíveis e simples, pelo diálogo e pela comunicação com o outro, havendo de antemão uma necessária preparação e conhecimento sobre a cultura e  respeito pela sua diversidade, mas também por atenção, sensibilidade, disponibilidade e empatia, em relação ao individuo e as situações que traz ao contexto de saúde do trabalho, na sua singularidade e especificidade.

No entanto, apesar de uma parte de responsabilidade estar por vezes delegada no provider de Saúde do Trabalho, o caminho será cada vez mais o do estabelecimento de uma verdadeira parceria e participação ativa também da entidade empregadora.

Assim, não existe Saúde Intercultural na Gestão de Pessoas se o foco estiver limitado ao cumprimento de obrigações legais que, obviamente, ainda que tendo sempre que ser o ponto de partida, deverão ser complementadas por verdadeiros programas de bem-estar e ganhos em saúde.

Num recente artigo de Alan Kohll para a Revista Forbes, o autor partilha desta visão e diz-nos que a solução para um programa de bem-estar e ganhos em saúde dos colaboradores é aprender como aliar o bem-estar físico, financeiro, emocional e social de cada pessoa na organização. Isso porque, segundo o autor, estas dimensões influenciam-se umas às outras. Por exemplo, se um colaborador tem dificuldades financeiras, o mais provável é que também sinta impactos emocionais e físicos diários que irão influenciar a sua capacidade de trabalho e, consequentemente, os índices de produtividade da empresa.

Nos tempos que correm, as organizações deverão necessariamente olhar para os seus ativos humanos como seres com diversas dimensões, e que, a Saúde do trabalho é como um todo, um todo que não passa só por exames e consulta com hora marcada de tempo em tempo, mas sim, um programa concertado onde a pessoa é tida em atenção.

Por vezes, pode existir uma tendência para criar estes programas de bem-estar e ganhos em saúde como que obrigações.

Esse não parece ser o melhor caminho. Um plano bem-sucedido a este nível passará muito mais pela motivação e sentimento de valorização por parte dos colaboradores enquanto verdadeiro benefício, pelo que, um dos segredos será o de não impor ou forçar nada aos colaboradores. Para além do que é legalmente obrigatório, estabelecer programas sim, mas de participação aberta;

Na sua concretização, importará ter também sempre presente que a Saúde é algo de vital importância, pelo que, os planos e iniciativas deverão ser feitas com profissionalismo, rigor e ter sempre na base o respeito pela individualidade e o anonimato sempre como salvaguarda.

Como dizia Alfred Korzbski (1879-1950), “o mapa não é o território”.

Em jeito de síntese: a Gestão de Pessoas será tanto mais saudável quanto mais flexível e adaptável for. Cada pessoa é um mundo que deve ser compreendido à luz das circunstâncias do momento. Por isso, melhoremos as nossas capacidades de comunicação, o nosso entendimento, a nossa compreensão e os nossos conhecimentos, para que a ação na saúde e bem-estar seja concertada, direcionada e integrada.

Publicado na infoRH: https://inforh.pt/interculturalidade-e-saude-na-gestao-de-pessoas-ou-a-saude-intercultural-na-gestao-de-pessoas/

Anabela Moreira | HR Consultant, Coaching, Copywriting, Mentoring and Training

Viajou por muitos países, conheceu muitas pessoas e muitos lugares. Aprendeu com todas as pessoas que observou e com quem conversou. Trabalhou em Portugal, na Bélgica, nos EUA e em Angola. Hoje desenvolve o seu trabalho na área da gestão de pessoas (recursos humanos), formação, coaching e mentoring. E escrita, adora escrever. Assumiu diferentes funções e colaborou com empresas em diferentes estados de maturação, quer em ambiente nacional, quer internacional. Desempenhou funções relacionadas com: gestão do talento e tarefas inerentes; gestão de recursos humanos em sentido lato e formação e desenvolvimento. A nível académico, estudou direito na Universidade de Coimbra, mas foi em Psicologia e no Porto que encontrou a sua verdadeira vocação. É certificada em Coaching, PNL e estuda todos os dias mais um pouco, vê mais um pouco, ouve mais um pouco para poder ser mais cultivada. Hoje gere a UpTogether Consulting e trabalha com pessoas, para pessoas. Faz programas de shaping leaders e reshaping leaders e gosta muito do que faz. Costuma dizer às crianças que forma enquanto voluntária em educação para os direitos humanos: “quando mais soubermos, quanto mais conhecemos e sentimos, menos somos enganados”. Enfrenta cada dia com uma enorme alegria que é simples de ver e sentir!

Publicações que poderá gostar...

Posts mais Populares

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *