Anabela Moreira

2019 – O ano que Kafka não abençoou

Atrevo-me a dizer em consciência que 2019 foi o PIOR ano da minha vida. Perdi tudo: perdi a confiança nas pessoas, perdi pessoas profundamente fracas como pessoas e profundamente fracas de carácter. Pessoas que achei que amava e a quem dei tudo. Perdi as pessoas que se aproveitaram de mim pela posição que tinha e pelo que podia dar. Perdi tudo o que tinha de material e por isso perdi as pessoas que estavam cá pelas vantagens que o meu material lhes podia dar (e ainda bem).

Não me perdi a mim.

Ganhei as 2 melhores amigas que alguém pode querer neste desespero. Perdi as outras quem tinham capa de amigas (ou máscara, não importa). Mais uma vez, não me perdi a mim.

Revisitei aprendizagens que não quis ter: toda a gente (as exceções confirmam a enorme regra) se move por um interesse, vantagens, favores, seja por dinheiro (a mais frequente), tempo ou apoio emocional. Contam-se mentiras inimagináveis para isto. Fazem-se de coitadinhos. Faz-se o que for preciso. Revisitei esta aprendizagem, mas não quero ficar: olá e até nunca, foi uma visita de médico, obrigada. A prescrição medicamentosa é: 1 dose enorme de fuga a 7 pés.

E não me perdi no caminho de volta a casa desta visita rápida.

Expus a minha vida, as minhas emoções, o que sentia e todos os dias fui condenada por isso. Desenvolvi o conceito a que chamo: Sentirismo: discriminação formal de todos os que sentem e escrevem ou falam sobre isso sem limitações ou convenções.

Cerrei os dentes e fixei sempre isto no meu pensamento: a vida não é isto. Viver não é isto.

Lutei contra Monstros, o Estado e os serviços privados, especialmente Bancos e todos me negaram o que era meu: o meu nome. Não pude votar. Não pude falar. Não pude viver e não pude ser. Pelo caminho, agarrei-me à minha única boia de salvação: o ar que respirava e algumas palavras que lia.

Passei fome, passei frio e passei sono. Dormi onde me deixaram dormir. Dormi no meu carro só para me agarrar aquilo em que acreditava: o mal e o mau não podem ser mais fortes que eu, não podem ser mais fortes do que o meu amor.

Todo o dinheiro que emprestei com amor, porque podia no momento em que me pediram, todas as contas que paguei por outras pessoas, porque podia e porque amava essas pessoas, amigas a amigos, quando pedi de volta o que lhes fosse possível pagar, fez com que essas pessoas desaparecessem no ar. Ainda dizem que não se consegue dissipar matéria… A NASA devia contratar estas pessoas para case studies e experiências…

Percebi em 2019, que quando tudo falha, a tua família vai falhar ainda mais. Que quando ficas sem chão, a tua família te pode tirar a placa tectónica que o tremor de terra abanou, mas que ainda lá estava. E essa placa também se vai embora. E assim, fazes uma viagem direta ao centro da terra, és fogo, és lava e juntas-te à lava…

Só porque casaste 2 vezes e pelos vistos fui só eu que nestes casamentos falhei… E por querer continuar a ter uma vida numa aldeia, não é possível. Fico mal falada, dou mau nome à família…

Percebi que Murphy e o Clacke eram otimistas e francos percursores da psicologia positiva.

Em 2019 não soube pedir e pedi muito. Pedi tanto… Pedi respeito, pedi reciprocidade em tudo o que sempre fiz e dei. Sobretudo pedi-me (sim, a mim mesma, sim) todos os dias perdão por ter investido a minha vida em quem nunca mereceu 1 segundo da minha atenção. 1 milésimo de segundo teria sido demais.

Neste ano que passou aprendi que não quero ser explorada a nível profissional. Aprendi que ninguém pode tudo, que gratuitidades toda a gente quer e poucas pessoas estão em Portugal dispostas a pagar o que vales em trabalho, criatividade e em prontidão.

Percebi que tudo é bom se gratuito e péssimo quando faturado.

Descobri também que o mundo é grande e que lá fora, fora das fronteiras deste país pequeno onde se fala a Língua de Camões, o teu valor é provado com um portfólio e ninguém contesta o teu valor. Aprendi que trabalhar condignamente é um direito humano abusado em Portugal, mas respeitado noutros lugares.

Aprendi que a justiça é todos os dias injusta. Que tens de pagar IVA sem as pessoas te pagarem (e sem saberes se algum dia te vão pagar) e ainda tens de pagar advogados e à justiça para recuperares o que sempre foi teu: o valor do teu trabalho e o teu nome.

Aprendi que ser filho-da-puta está na moda e veste bem a muita gente. Eu, felizmente, nunca estive na moda (mas sempre vesti bem…).

Aprendi que posso ser o que eu quiser todos os dias e que ninguém é só uma coisa nunca.

Aprendi que pensar sobre as coisas e triangular tem potencial para dar prisão. Ler e estar informada também.

Percebi que todas as pessoas que cruzam o meu caminho querem ajudar os outros. Eu precisei de ajuda e de um abrigo, mas não sou os “outros”, não passo fome em África, passo em Portugal e é diferente…

Aprendi que não se pode dizer a verdade, que ninguém quer ouvir a verdade e ninguém quer ser lembrado da verdade, porque a verdade dói e incomoda e somos pressionados a pensar e tomar decisões e isso é chato e complicado.

Percebi que todas as pessoas podem dizer o que quiserem, aleatoriamente e sem fundamentação, que podem forjar o que quiserem, manipular o que dizes e o que escreves, e que, contra factos, afinal, há argumentos.

Percebi que o amor se mistura com o dinheiro, e o dinheiro com as emoções, as emoções com a competição e a competição com o amor, e que no fim disto, entre os menos e os mais, o resultado é ZERO.

Descobri que quando dizemos: “Não sei como é que aquela pessoa consegue deitar a cabeça na almofada e dormir”, é um desperdício de tempo e de palavras boas (não gastem as palavras!). De facto, as pessoas dormem bem, porque foder os outros é forma de vida e enraizou na pessoa e ela nem percebe já. No limite, vai a uma farmácia e toma umas valerianas ou trafica online umas drogas para dormir (ou vai mentir sobre a vida a um médico, também dá).

Compreendi que não existe “amor para a vida toda”, que isso é só uma música boa. Não existe amor para a vida toda, nem de pai, nem de mãe, nem de irmãos, nem de sobrinhos, nem de sobrinhas, nem de amigos, nem de namorados, nem de maridos nem de mulheres. É só uma mentira que alimenta música, escrita e a arte em geral.

Percebi que a mentira é mais fácil e credível e que a verdade é sempre derrotada. E percebi que há 7.7 biliões de verdades. E de justiças.

Percebi que as pessoas à tua volta vão sempre assumir coisas e presumir que sabem sobre a tua vida (à semelhança e proporcional à experiência que elas próprias têm e ao que sabem… Sobre elas…). Percebi que assumem e não te perguntam. No limite, nem querem saber. “Chega para lá com os teus problemas, tenho os meus. Não quero saber e não me digas. Estás tóxica e fazes-me mal”. Ouvi de tudo e tenho pena de dizer isto, mas ouvi tudo de pessoas que estiveram também com problemas e a memória curta não lhe permitiu lembrar que EU estive lá e as desenrasquei com o amor e com o dinheiro que podia naquele momento…

Até 2019 deixei de ter ou de fazer para dar aos outros que diziam precisar. Como dizia o meu pai um dia: “filha, somos iguais até na estupidez” e eu fui tão estúpida tantos anos foda-se!

Aprendi que não damos o que temos. Damos às vezes aquilo que pensamos não ter, como o amor inesgotável. A contraparte às vezes não dá e por isso não se esvazia…

31/12/2019 – Ia acabar este artigo hoje, mas sabem, que se foda! Não vale a pena. Estou farta de tramas e dos dramas dos outros (das outras), quero viver a vida simples! 2019 Está vivido e morto. Viva 2020! Hoje sou uma pessoa pior e muito melhor do que era.

2019 FOI O PIOR E O MAIS ESPETACULAR ANO DA MINHA VIDA E POR ISSO SOU MUITO MAS MESMO MUITO GRATA!

Percebi no fim do ano que não fui a Praga como queria. Está explicada esta miséria de ano… A Ponte do Carlos não ligou e o Kafka não abençoou. Abençoou Deus, uma estrela, a minha irmã Ni, ou outra divindade qualquer, que eu não acredito mas que faz acontecer na minha vida!

Em 2019, os meus únicos agradecimentos, profunda gratidão, sentida com o resto de emoção que tenho vão para as pessoas que me lembraram quem eu sou quando comecei a esquecer e a duvidar: Vânia Magalhães, por ser amor; vão para a Daniela Lutero por ter sido (e suportado) a minha dor; vão para a Bonnie por me lembrar sempre que sou um amor; Vão para o Nuno Guerra, que no meio de nada, me viu; e vão para o Ricardo Assunção Sousa que soube em algumas alturas ser o meu lar. Os restantes, souberam pairar e outros desaparecer. Para os que pairaram e que desapareceram, que se vão foder. Quando precisarem, como já precisaram, estou aqui. Com dinheiro, segurança, cabeça, coração e caráter. Obrigada.

Anabela Moreira | HR Consultant, Coaching, Copywriting, Mentoring and Training

Viajou por muitos países, conheceu muitas pessoas e muitos lugares. Aprendeu com todas as pessoas que observou e com quem conversou. Trabalhou em Portugal, na Bélgica, nos EUA e em Angola. Hoje desenvolve o seu trabalho na área da gestão de pessoas (recursos humanos), formação, coaching e mentoring. E escrita, adora escrever. Assumiu diferentes funções e colaborou com empresas em diferentes estados de maturação, quer em ambiente nacional, quer internacional. Desempenhou funções relacionadas com: gestão do talento e tarefas inerentes; gestão de recursos humanos em sentido lato e formação e desenvolvimento. A nível académico, estudou direito na Universidade de Coimbra, mas foi em Psicologia e no Porto que encontrou a sua verdadeira vocação. É certificada em Coaching, PNL e estuda todos os dias mais um pouco, vê mais um pouco, ouve mais um pouco para poder ser mais cultivada. Hoje gere a UpTogether Consulting e trabalha com pessoas, para pessoas. Faz programas de shaping leaders e reshaping leaders e gosta muito do que faz. Costuma dizer às crianças que forma enquanto voluntária em educação para os direitos humanos: “quando mais soubermos, quanto mais conhecemos e sentimos, menos somos enganados”. Enfrenta cada dia com uma enorme alegria que é simples de ver e sentir!

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2 Comments

  1. […] 2019 foi um ano muito particular, vamos dizer assim. Se tiveres curiosidade, podes descobrir aqui: 2019 – O ano que Kafka não abençoou. […]

  2. […] meu nome é Anabela Moreira e um mau ano de 2019 ditou que eu fosse ainda mais Fénix. Tive de reorganizar e reestruturar a minha vida. Nisso […]

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